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 A Próstata como ela é

Shakespeare dizia que o passar dos anos produzia nos homens sensações inevitáveis, as pernas cada vez mais finas dançavam desconcertadas dentro de calças cada vez mais folgadas, o corpo combalido se mantinha alheio aos pedidos da alma e do coração. Esqueceu-se de falar dos incômodos da próstata. Uma glândula emblemática, que nos jovens tem o papel triunfal de alimentar e manter vivos os espermatozóides e, com isto, perpetuar a espécie. Mas que no homem maduro é responsável por dois tormentos distintos, ambos de conseqüências negativas para a qualidade e quantidade de vida: o crescimento benigno ou hiperplasia e o câncer.
A próstata, glândula com as dimensões de uma noz, situa-se em torno do canal uretral, responsável pelo transporte de urina da bexiga para o exterior. Após os 40 anos de idade, 80 % a 90 % dos homens apresentam um crescimento benigno da glândula, que estrangula a luz do canal uretral e cria graus variados de dificuldade para se expelir a urina.
O outro problema que pode atingir a próstata é o câncer, sem relação com o crescimento benigno e que tem todas as implicações indesejáveis das doenças malignas. De acordo com dados produzidos este ano pela American Câncer Society, 13% dos homens norte-americanos serão atingidos pelo câncer da próstata e nada faz crer que no Brasil estes números sejam diferentes.
As causa do crescimento benigno da próstata não são bem conhecidas, mas sabe-se que o problema é três vezes mais comum em homens cujos pais foram submetidos à cirurgia da glândula. Por outro lado, observou-se que intervenções de próstata são 50 % menos freqüentes em fumantes e obesos. Isto poderia sugerir que o fumo e a obesidade impedem o crescimento da próstata. Explicação inédita, porque pela primeira vez em medicina estaria sendo provado que cigarro e excesso de peso fazem bem à saúde.
Com o crescimento benigno, surgem transtornos urinários sob forma de enfraquecimento do jato urinário, gotejamento de urina após cada micção, sensação de urgência para urinar e, o mais incômodo, o aumento do número de micções, principalmente durante à noite.
Na maioria das vezes esses sintomas são discretos e toleráveis, em apenas um terço dos casos eles tornam-se inconvenientes e passam a prejudicar a qualidade de vida do paciente. Curiosamente, essas manifestações são cíclicas e alguns homens chegam a apresentar regressão espontânea das mesmas.
Para tratar os pacientes com crescimento benigno, os médicos tomam suas decisões baseados na magnitude das manifestações urinárias. Felizmente a maioria dos homens apresenta manifestações discretas e convive amistosamente com a situação, entre 25% e 40% apresentam queixas persistentes que exigem algum tratamento e em apenas 10% torna-se necessária a cirurgia.
Gostaria de dizer que o tratamento da hiperplasia só deve ser instituído quando os sintomas clínicos são proeminentes.
Entre 30% e 60% dos pacientes tratados com medicações apresentam melhora do quadro clínico, mas a possibilidade de surgirem reações adversas, como queda da pressão arterial ou disfunção sexual (ocorrem em 5% a 10% dos casos), limitam o uso indiscriminado desses agentes.
Quando se opta pela remoção cirúrgica, os especialistas empregam duas técnicas, uma executada através da incisão abdominal e preferível em próstatas volumosas, outra realizada pelo canal uretral, chamada cirurgia endoscópica e eficiente em glândulas com menos de 80 gramas.
Ademais, as cirurgias podem se acompanhar de seqüelas de fácil adaptação, como o orgasmo seco, sem saída de esperma, observado entre 75% a 90% dos pacientes, e outras mais indesejáveis, como incontinência (perdas involuntárias de urina), que surgem em 0,5% a 3% dos casos. Uma palavra tranqüilizadora, as intervenções nos casos de crescimento benigno não colocam em risco a potência sexual, isto só ocorre em pacientes com câncer da próstata submetidos a cirurgia radical ou radioterapia.
Com relação ao câncer da próstata tenho uma notícia ruim e outra boa. O número de casos da doença triplicou nos últimos 15 anos. Notícia ruim ou boa, dependendo do lado da mesa em que você costuma sentar no consultório médico.
Três motivos explicam o aumento no número de casos da doença. O câncer da próstata atinge principalmente indivíduos com mais de 50 anos e a sua freqüência cresce com a idade. Com o aumento da longevidade do homem, mais casos são gerados na população. Em segundo lugar, a maior ilustração dos leigos sobre o problema e as constantes campanhas de detecção da doença passaram a identificar mais pacientes com câncer. Finalmente, ocorreu um aumento real na incidência desse tumor maligno.
A causa precisa do câncer da próstata não é conhecida, mas sabe-se que dois fatores aumentam os riscos da doença: raça e casos na família. Esse câncer é 50% mais freqüente em negros do que em brancos; também manifesta-se de forma mais agressiva em negros, cuja chance de morrer pelo mal é o dobro da observada em brancos. Da mesma forma, os riscos de câncer da próstata dobram em homens que têm um parente de primeiro grau (pai ou irmão) com a doença e é cinco vezes maior quando dois parentes de primeiro grau são atingidos pelo tumor.
O câncer da próstata não produz manifestações nas fases iniciais, quando o processo é potencialmente curável. Por isso, homens só poderão ser auxiliados pela medicina se, espontaneamente, realizarem exames periódicos da glândula. Por periódicos entende-se exames anuais a partir dos 50 anos; indivíduos com casos na família devem iniciar os exames preventivos aos 45 anos.
A identificação do câncer pode ser feita com precisão pelo especialista, por meio do toque da próstata e das dosagens no sangue do antígeno prostático específico (PSA). Esses dois exames devem ser realizados conjuntamente, já que o toque falha em 30% a 40% dos casos e o PSA falha em 20%.
Quando se chega à conclusão, pelas suas características, de que a doença precisa ser combatida, os especialistas selecionam o tratamento em função da extensão do câncer. Os pacientes com tumores localizados dentro da próstata são tratados com cirurgia (prostatectomia radical), com radioterapia externa (feixes de irradiação lançados sobre a próstata, em múltiplas sessões) ou com braquiterapia (implante na próstata de pequenas sementes de iodo radioativo, através de agulhas, em uma única sessão).
Os casos de câncer que se estendem para outros órgãos, gerando focos adicionais de doença denominados metástases, são tratados com a remoção dos testículos ou com hormônios. Essa última estratégia é também utilizada nos tumores mais simples, quando se julga que os inconvenientes da cirurgia ou da radioterapia suplantam o potencial de agressividade da doença.
Em 20% a 40% dos pacientes submetidos à radioterapia permanecem com focos vivos do câncer quando a próstata é estudada dois anos após o tratamento inicial. Os radioterapeutas dizem que essas lesões residuais são inativas, na minha concepção, obviamente tendenciosa, câncer indolente é aquele que está dentro de um frasco de formol, não dentro do nosso organismo.
A prostatectomia radical acompanha-se de impotência sexual em 15% a 80% dos casos e de incontinência urinária em 3% a 35% dos mesmos, dependendo da experiência do cirurgião.
O câncer de próstata não pode ser evitado no presente momento, mas os riscos da doença podem ser atenuados com medidas simples. A redução da ingestão de gordura animal para menos de 15% do total de calorias diárias e o consumo de alimentos ricos em genisteína e enterolactonas, como brócolis, espinafre, repolho, couve-flor, feijão, soja e abóbora, provavelmente reduzem a incidência da doença, se adotados no início da idade adulta.
O consumo de licopeno, presente em grande quantidade no tomate e seus derivados, na goiaba vermelha e na melancia, diminui em 35% os riscos de câncer da próstata, segundo estudos da Universidade de Harvard.
Ademais, de acordo com pesquisas da Dra. Kathy Helzlsouer, da Universidade Johns Hopkins, homens que ingerem o equivalente a 800 mg de alfatocoferol (vitamina E) e 200 microg de selênio (quantidade existente em duas castanhas do Pará) apresentam redução de 36% a 75% na incidência da doença. Ainda, de acordo com pesquisadores neozelandeses, a ingestão de ácidos graxos não-saturados de cadeia longa encontrados em óleos de peixes, principalmente o salmão, reduz de forma expressiva os riscos de aparecimento desses tumores.
Finalizo lembrando que a incidência do câncer da próstata aumenta com a idade, 50% dos indivíduos com 80 anos apresentam áreas cancerosas na glândula e a doença não poupará nenhum homem que viver até os 100 anos.


Dr Eduardo Scortegagna - Urologista

 

 

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